Arquivo do mês: novembro 2010

Scheler e Freud: Atrito do conhecimento

 

Artur Júnior dos Santos Lopes 

INTRODUÇÃO

“A civilização humana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais – e desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização -, apresenta, como sabemos, dois aspectos ao observador.” (Freud, pág. 10)

Neste trabalho pretendo apresentar de uma forma sucinta o atrito do conhecimento produzido por Max Scheler e Freud. Tenho consciência de que neste momento apenas poderei apresentar uma parca apreciação das idéias de cada um e talvez alguns pontos comuns entre estes dois expoentes da intelectualidade humana.

O problema que gostaria de abordar é: Como justificar um espírito sem força na teoria de Scheler? Como pode tal espírito apresentar qualquer valor a volição humana? Onde reside tal espírito e o que pode querer?

1.    APRESENTAÇÃO DOS PONTOS

Aqui pretendo uma rápida abordagem sobre a visão de cada um dos autores. Primeiro colocarei como Scheler percebe o Espírito e a sua refutação das doutrinas negativas. Em outro ponto apresentarei como Freud percebe a repressão do instinto e como podemos perceber a relação com o Espírito de Scheler.

Quero perceber a diferença de abordagem entre os autores e buscar os pontos convergentes destas duas doutrinas, seus pontos fortes e onde precisam ser melhor trabalhados.

1.1.       SCHELER

Em Scheler podemos perceber a procura pela apresentação de um espírito que é parte da essência humana e que por isso traz uma diferenciação radical do animal. Scheler apresenta um espírito que busca apresentar idéias para a volição humana. Idéias estas que em geral contrariam os instintos. Amainam o ser humano para que seja possível o contato social.

Scheler credita ao espírito a capacidade de transcender as necessidades humanas e apresentar valores diferentes dos valores animais. O espírito em Scheler não tem força, é apenas uma centelha que apresenta ao animal outras possibilidades de escolhas que não apenas as da pulsão vital. Valores como a solidariedade, a amizade, o respeito, nos parecem exemplos de tais valores espirituais.

Neste ponto precisamos concordar com Scheler. Contudo sua teoria apresenta problemas. Sendo tão frágil e tão volátil o espírito nos aparece uma questão: Onde reside este espírito? Se é tão imaterial onde ele existe?

1.2.       FREUD

Por sua vez Freud nos apresenta um posicionamento exato deste mecanismo humano e psicológico que freia o impulso animal. Na teoria freudiana percebe-se o Super Ego como parte da estrutura psíquica responsável por coibir a plena expressão do ID pelo Ego. Ficando assim frustrada uma das principais tarefas do Ego: a de ser o Executivo do ID. Aqui temos um posicionamento bastante claro do que e onde está o que refreia o animal humano. Freud nos apresenta um aprofundamento muito sério e minucioso das complexas estruturas inconscientes que fazem do ser humano ser o que é.

Mas esta apresentação, dizer onde está é suficiente? Parece que não. Existem muitas perguntas aqui que ficam sem resposta. Por exemplo: Como surge a divisão entre estas três porções da psique humana. ID, Ego e Superego? Por que surge tal divisão? Neste ponto Freud fica sem uma resposta.

2.    O DIÁLOGO SCHELER-FREUD

Percebo aqui a possibilidade de diálogo entre os dois intelectuais. Scheler tem dificuldades em radicar os espírito, mas é muito feliz ao mostrar onde se dá a ruptura entre a pulsão vital e a sua repressão. Por sua vez, Freud consegue localizar muito bem as estruturas pulsionais e de repressão existentes no ser humano. Mas não consegue satisfatoriamente colocar como exatamente estas estruturas se formam. Não consegue responder: como se fragmenta o ser humano

CONCLUSÃO

Pude depreender que a junção e a busca do posicionamento do espírito e a formação da ruptura entre a pulsão vital e a repressão instintual, antes de serem antagônicas se mostram complementares.

O assunto é controverso e polemico e poderia gerar uma aprofundamento muito maior, mas neste momento parece ser muito produtivo apresentá-lo e dedicar maior esforço na coleta de informações e materiais.

BIBLIOGRAFIA

FREUD, Sigmund. The Future of an Illusion, 1928 Londres: Hogarth Press e Instituto de Psicanálise. 98 págs. (Trad. de W.D. Robson-Scott.).

SCHELER, Max. A posição do Homem no Cosmos. Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2003, 123págs.

Porto Alegre, 01 de Dezembro de 2008.


Da Ceteza: Wittgenstein

Artur Júnior dos Santos Lopes

INTRODUÇÃO

“Se você, de fato, sabe que aqui está uma mão, admitiremos tudo o mais.

Quando alguém diz que uma certa proposição não pode ser provada, evidentemente que não quer dizer que não possa ser derivada de outras proposições; qualquer proposição pode ser derivada de outras. Mas estas podem não se mais certas do que a já mencionada (a este respeito existe um comentário interessante de H. Newman).” (Aforismo 1)

Lendo este aforismo, fiquei tencionado a procurar que relações podem existir entre as proposições. O que mantém a coesão das proposições? Buscar esta resposta em Wittgenstein me fez refletir sobre a possibilidade de um sistema que interligasse as proposições. Será isso que Wittgenstein queria dizer? Não tenho como saber. Desta maneira procurarei descrever o que estes aforismos de Wittgenstein causaram em mim.

1.    APRESENTAÇÃO DOS PONTOS

Buscarei apontar, rapidamente, como Wittgenstein, no meu ponto de vista procura apresentar um sistema. Como, a partir, deste sistema consegue explicar a consistência das proposições.

1.1.       FUNDAMENTAÇÃO

Para fundamentar meu pensamento, me apoiarei nos aforismos: 41, que fala sobre a necessidade relacional; 94, onde apresenta a formação do sistema; 102, onde apresenta o sistema como estrutura;117, onde ainda continua a formação da estrutura se fixa na justificação da proposição; 126, onde aparece a parte negativa do sistema ou a formação do sistema de dúvida; 137, o papel dos juízos empíricos; 141, 142 e 144, onde aparece o sistema proposicional; 148, onde fica a necessidade da confirmação do sistema; 190, fortalecimento das proposições dentro de um sistema; 211, estrutura fundante do sistema; 247, como o sistema se sustenta (sistema e dúvida); 279, sistema total de verificação; 419, necessidade da estabilidade das relações entre as proposições; 473, estabilidade do sistema de crenças; 613, contingência no sistema.

Sei que minha pretensão é grande e talvez exagerada, e é muito possível que no pouco tempo que, com sacrifício consigo dispor para a filosofia, não consiga atingir meu intento. Mas isso não me importa. Me importa conseguir dar sentido as minhas reflexões e de alguma maneira procurar apresentá-la de uma forma coerente.

Muito obrigado!

2.    SISTEMA EM WITTGENSTEIN

Aforismo 41: <<Eu sei onde me dói>>, <<Eu sei que sinto aqui>> é tão errado com o <<Eu sei que estou a sofrer>>. Mas <<Eu sei onde você tocou no meu braço>> está correto.

No meu ponto de vista apresenta-se aqui uma necessidade relacional para que possamos saber algo. O saber de algo não está solto e não é subjetivo, está de alguma forma relacionado: Como?

Aforismo 94: Mas eu não obtive a minha imagem do mundo por me ter convencido da sua justeza, nem a mantenho porque me convenci da sua justeza. Pelo contrario, é o quadro de referências herdado que me faz distinguir o verdadeiro do falso.

Aqui parece-me que Wittgenstein começa a dar pistas para que eu desvende o mistério desta “necessidade relacional”. Inicia informando que há um quadro referencial que me concede a capacidade de estabelecer juízos, de dizer: Eu sei.

Aforismo 102: Não poderia eu acreditar que , uma vez, sem o saber, talvez em estado de inconsciência, eu tivesse sido levado para longe da Terra – que outras pessoas até o sabem, mas não mo dizem? Mas isso não se enquadraria, de modo algum, no resto das minhas convicções. Contudo, as minhas convicções forma de fato um sistema, uma estrutura.

A relação apresentada nos aforismos anteriores começa a tomar corpo no aforismo 102, aqui Wittgenstein começa a falar em um “sistema de convicções” em uma “estrutura”.

Aforismo 117: Porque é que não me é possível duvidar de que nunca estive na Lua? E como poderia tentar duvidar disso? Antes de tudo, porque a suposição de que talvez lá tenha estado parecer-me-ia inútil.

Nada resultaria disso, nada seria explicado por isso. Não se relacionaria com fosso o que fosse da minha vida.

Quando digo <<Não corrobora, tudo é contra>>, isso é, eu tenho de ser capaz de dizer o que serviria para corroborar.

Aqui Wittgenstein começa a dar sustentação a estrutura, ao sistema anteriormente apresentado. De uma forma negativa, é verdade, mas começa a apresentar motivos pelos quais eu deveria manter alguns juízos no meu sistema em detrimento de outros: juízos que em nada corroboram com meu sistema devem ser dispensados.

Aforismo 126: Não tenho mais certezas quanto ao significado das minhas palavras do que tenho acerca de certos juízos. Posso duvidar de que se chama <<azul>> esta cor?

As minhas dúvidas formam um sistema.

Brilhante este aforismo. É a parte negativa do sistema. Estou vendo que um sistema paralelo se forma junto ao sistema inicial. Um sistema de coesão entre as dúvidas que tenho.

Aforismo 137: Mesmo se um homem da maior confiança me segura eu sabe que as coisas são desta e daquela maneira, só isso não me convence de que ele o sabe realmente. Apenas de que ele crê que sabe. É por isso que a asseveração de Moore de que sabe… não nos interessa. Contudo, as proposições que Moore indica como exemplos dessas verdades sabidas são de fato interessantes. Não porque qualquer pessoa saiba que são verdade ou acredite que ele saiba, mas porque têm um papel semelhante no sistema dos nossos juízos empíricos.

Neste aforismo Wittgenstein apresenta a forma como os juízos emitidos por outras pessoas fazem sentido para mim. É o ponto de toque entre sistemas diferentes. Aqui os sistema de juízos empíricos tem um ponto de conexão e não estamos mais a falar de subjetividades.

Aforismos 141, 142 e 144:

141: Quando começamos a acreditar em qualquer coisa, aquilo em que acreditamos não é uma proposição isolada, é um sistema completo de proposições. (Faz-se luz gradualmente sobre o conjunto)

142: Não são os axiomas isolados que me parecem óbvios, é um sistema em que as conclusões e as premissas se apóiam mutuamente.

144: A criança aprende a acreditar num grande número de coisas. Isto é, aprende a atuar de acordo com essas convicções. Pouco a pouco forma-se um sistema daquilo em que acredito e, nesse sistema, algumas coisas permanecem inabalavelmente firmes, enquanto algumas outras são mais ou menos susceptíveis de alteração. Aquilo que permanece firme não o é assim por ser intrinsecamente óbvio ou convincente; antes aquilo que o rodeia é que lhe dá consistência.

A formação do sistema se dá gradualmente. Não ocorre de forma isolada, as proposições se apóiam mutuamente. Aqui se dá um apoio entre premissas e conclusões.

Aforismo 148: Porque é que não verifico se tenho dois pés quando quero levantar-me da cadeira? Não há porquê. Não o faço, simplesmente. É assim que ajo.

O sistema proposicional age de forma quase inconsciente. Eu sei de algumas coisas. Não faz sentido duvidar. Não entra em meu sistema de dúvidas duvidar que os meus pés estão aqui. Simplesmente os uso.

Aforismo 190: Aquilo a que chamamos evidencia histórica aponta para a existência da Terra muito antes do meu nascimento; – a hipótese contraria não tem nada a seu favor.

Novamente falamos da formação do sistema de dúvida como fortalecedor do sistema de proposições, ou de juízos empíricos. Começamos a pensar os dois sistemas como apenas partes de um único sistema.

Aforismo 211: Dá a nossa maneira de ver as coisas, às nossas pesquisas, a sua forma. É possível que, alguma vez, tenha sido controverso. Mas talvez, desde tempos imemoriáveis, tenha pertencido à estrutura dos nossos pensamentos (todo o ser humano tem pais).

Aqui nossa estrutura intelectiva, parece remontar a algum momento em que ela surgiu. E surgiu de uma forma geral, não para todos ao mesmo tempo, mas criou-se enquanto se criava.

Aforismo 247: Como seria duvidar agora de que tenho duas mãos? Porque será que não o posso imaginar de modo algum? Em que acreditaria, se não acreditasse nisso? Até agora não tenho sistema algum que pudesse incluir essa dúvida.

Neste ponto parece-me que Wittgenstein procura apresentar que não há uma boa razão para que tudo se torne duvidoso. Até para duvidar precisamos de boas razões. O sistema se forma e se fortalece quando a dúvida não consegue o penetrar.

Aforismo 279: É perfeitamente seguro que os automóveis não crescem da terra. Se alguém acreditasse no contrario, sentíamos que era capas de acreditar em todo o que consideramos não ser verdade e poderia pôr em questão tudo o que temos por seguro.

Mas como é que uma convicção como essa pode ligar-se a tudo o resto? Diríamos que alguém que pudesse acreditar nisso não aceita o nosso sistema total de verificação.

Este sistema é adquirido pelo conhecimento através da observação e da instrução. Intencionalmente não digo <<aprendido>>.

Excelente pista nos apresenta Wittgenstein para a formação do sistema: O sistema se forma na observação e instrução.

Aforismo 419: Se digo <<Nunca estive na Ásia Menor>>, donde me vem esse conhecimento? Não o elaborei, ninguém mo disse; é aminha memória que mo diz. Assim, não poderei estar errado acerca disso? Há uma verdade aqui que eu saiba? – Não posso renunciar a este juízo sem que se desmoronem todos os juízos ao mesmo tempo.

Os juízos estão relacionados, e além da observação e da instrução somam-se a memória a formação de meu sistema de proposições.

Aforismo 473: Assim como, no respeitante à escrita, aprendemos uma certa forma básica das letras e depois fazemo-lo variar mais tarde, também aprendemos primeiro a estabilidade das coisas como sendo a norma que depois está sujeita a alterações.

Nosso sistema de proposições varia de acordo com nossos aprendizados, não é estanque, mas precisa de uma certa estabilidade.

Aforismo 613: Se eu disser agora <<Eu sei que a água na chaleira que está ao lume não gelará mas antes ferverá>>, parece que tenho tanta justificação neste <<eu sei>> como noutro qualquer. <<Se há algo que eu saiba, então é isto>> – Ou saberei ainda com a maior certeza que a pessoa que está a minha frente é o meu velho amigo N. N.? E como é que isso se compara com a proposição de que estou a ver com dois olhos e os verei se me contemplar ao espelho? – Não sei com segurança o que devo responder a isto. – Mas, contudo, há uma diferença entre os casos. Se a água ao lume gelar, eu ficarei o mais espantado possível, mas presumirei que interveio um fato que não conheço e talvez deixarei o assunto à consideração dos físicos. Mas que me faria duvidar de que a pessoa aqui presente é N. N. que eu conheci há anos? Uma dúvida que pareceria arrastar tudo consigo, mergulhando no caos.

Aqui fica demonstrado que alguma proposições do meu sistema são frágeis e das quais abro mão com facilidade sem colocar em jogo todo o sistema.

CONCLUSÃO

De alguma forma pude depreender do que acima verifiquei que em Wittgenstein há um sistema proposicional que está dividido em duas partes. Uma positiva, o sistema de juízos proposicionais e o sistema de dúvidas, que juntos possibilitam o sistema.

O que alimenta este sistema são a memória, a instrução e a observação.

Agradeço mais uma vez.

BIBLIOGRAFIA

WITTGENSTEIN, Ludwig. Da Certeza: edições 70

Porto Alegre, 26 de Novembro de 2010.


Aristóteles – Livro IV da Metafísica

1 INTRODUÇÃO
Localizar as questões centrais do quarto livro da Metafísica Aristotélica é atividade complexa. No meu ponto de vista Aristóteles apresenta neste livro as definições que irão sustentar toda a sua metafísica. Aqui está a diferenciação entre Substância e Acidente e também os princípios de não contradição, do terceiro excluído, e os argumentos que justificam seu posicionamento e a refutação a outras visões. O movimento aristotélico de ato e potencia também estão citados neste texto.

Aristóteles procura verificar como outros filósofos se colocam frente a questão do ser, e lhes pontua individualmente derrotando cada uma das formulações. Este procedimento ele adota com Heraclito, Parmenides, Demócrito, entre outros.

Agora, pretendo apresentar minha apreciação do que é a questão central do livro IV da Metafísica Aristotélica.

2 DESENVOLVIMENTO
2.1 DELIMITAÇÃO DA UTILIZAÇÃO DA LINGUAGEM
Aristóteles pretende verificar se há uma ciência única que deve procurar o “ser enquanto ser e seus atributos”. Para chegar a tal resposta, no meu ponto de vista, Aristóteles realiza um movimento no sentido de delimitar a utilização da linguagem. Procura estabelecer regras para a utilização da linguagem. O que pode e o que não pode ser dito em determinado sentido.

Neste livro esta me parece ser a questão central, tudo o mais que ocorre, ocorre em função de tentar justificar a utilização proposta da linguagem.

Reconheço que nos livros anteriores, principalmente no livro I, Aristóteles apresenta a forma que o ser humano tem de conhecer, o aparato cognitivo humano. Me parece que o livro IV, agora, pretende delimitar como este aparato deve ser utilizado. O que serve fortemente para justificar a verdade e o que não serve.

Porto Alegre, 26 de Setembro de 2010