Arquivo do mês: abril 2010

Implante Coclear

Artur Júnior dos Santos Lopes

1 INTRODUÇÃO

O implante coclear deve ser aplicado em uma pessoa? (De uma forma muito rasteira explico o implante coclear: O implante coclear visa recuperar a audição a pessoas que tenham surdez de nascença ou que tenham perdido a capacidade auditiva.)
Ao ser apresentado a esta questão, em um primeiro momento fiquei perplexo por imaginar que algumas pessoas pudessem desejar que a diferença fosse colocada como sendo mais importante do que a possibilidade de aprimorar o relacionamento com o meio ambiente. Depois questionei qual a capacidade que temos para determinar a normalidade das coisas.
Realmente a questão tornou-se controversa. Se pensamos ainda sob o aspecto cultural, ficamos mais impactados. Pois existe uma cultura surda. Uma cultura cega. Uma cultura paraplégica. Uma cultura gay. Uma cultura masculina. Assim alguns questionamentos são necessários: Um filho de um casal gay, precisa ser gay? Um filho de um casal paraplégico, precisa ser paraplégico? Um filho de um casal surdo, precisa ser surdo? Um filho de um casal cego, precisa ser cego? Um filho de um casal hétero, precisa ser hétero?
As respostas parecem ser simples. Mas creio que seja necessário o aprofundamento da questão, para que consigamos um posicionamento racional.
No desenvolvimento deste trabalho vou buscar uma aproximação, reconheço muito superficial, as implicações éticas estabelecidas na decisão de realizar ou não o implante coclear.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 RELAÇÕES COM O MEIO-AMBIENTE COMO MUNDO

É possível estabelecer uma relação com o mundo de diversas formas. Pensando em Kant (Estética Transcendental) percebemos que nossas relações estão estabelecidas dentro de um contexto de percepções espaciais e temporais relacionadas com o entendimento.
Um problema parece surgir: como fica meu relacionamento com o meio ambiente quando minha capacidade sensível fica reduzida? Não ver, não ouvir, não andar, não ter tato, paladar ou olfato, de alguma forma reduzem minha capacidade de interação e representação do mundo? A ausência de algum destes sentidos me coloca em desvantagem em relação com o mundo?
Sob o meu ponto de vista, percebo que a redução de capacidade sensível me causa dificuldades para perceber o mundo. No caso específico da surdez, penso que não conseguir perceber as relações das alturas entre notas musicais, timbres de instrumentos, harmonizações, reduzem o escopo de capacidade de relacionar estes conhecimentos, muito importantes para o desenvolvimento do raciocínio musical.
Junto a isso também percebo a dificuldade prática de relacionar-se com o trânsito, com as outras pessoas que são ouvintes. Aqui não estabeleço uma relação de quem é a responsabilidade pela adequação das condições, apenas procuro verificar a relação entre ouvintes e surdos no que se refere ao contato com o mundo.
Sob este aspecto percebo que há uma desvantagem, no que se refere ao relacionamento com o mundo para o surdo. Sendo assim, vou questionar: sob algum aspecto, é valida a argumentação que tenta manter a dificuldade de relação com o meio ambiente, frente a possibilidade da redução desta dificuldade? Vamos procurar dentro da ética a resposta para estas questões.

2.2 ABORDAEM ÉTICA

Dentro de uma visão Kantiana, teríamos a ética como uma ciência universalizável, que apregoa a igualdade entre todos os homens. Que tem a humanidade como fim. Dentro desta concepção seria impossível desejar restringir a alguém uma capacidade sensível que o colocaria em desvantagem em relação a sua capacidade de relacionar-se com o meio ambiente.
Talvez Valls nos instrua com outras possibilidade de relação com a ética. Ainda assim em nenhum momento percebemos a defensabilidade da manutenção de uma dificuldade de relação com o meio ambiente sobre a ótica da ética.
O que posso depreender dentro da ética é que devemos lançar mão de todos os recursos possíveis para colocar os seres humanos em igualdade de condições. Quer sob a abordagem fisiológica, intelectual, financeira ou social. A diferença é sempre bem vinda, mas se há a possibilidade de vencer algo que se coloca como dificuldade para o desenvolvimento das relações com o mundo, esta possibilidade deve ser bem utilizada.
A ética busca a defesa da possibilidade. Negar a possibilidade, para a ética, é um grave equivoco.

3 CONCLUSÃO

Tendo em vista o que expus anteriormente, buscando o auxilio da ética para responder a pergunta no que se refere ao implante coclear, creio que seja muito justificáveis os argumentos que procuram aplicar o implante como forma de possibilitar uma maneira a mais de relacionar com o meio ambiente. As argumentações contrárias ao implante coclear são argumentos de fundo emocional, que apresentam forte conteúdo de medo e insegurança, e sob os aspectos éticos apresentados não se mostram justificáveis.
Muito obrigado!

REFERÊNCIA

CANOZO, Ricarda. O implante coclear pela ótica da cultura surda. Acessado em 18 de abril de 2010. Disponível em: http://www.portalbaraogeraldo.com.br/noticias/gerais/o-implante-coclear-pela-otica-da-cultura-surda-0101/

KANT, Immanuel. Critica da Razão Pura. São Paulo, Martin Claret, 2005

THOMA, Adriana da Silva . A inversão epistemológica da anormalidade surda na pedagogia do cinema. In: Adriana da Silva Thoma; Maura Corcini Lopes. (Org.). A invenção da surdez: cultura, alteridade, identidade e diferença no campo da educação. Santa Cruz do Sul (RS): EDUNISC, 2004, v. , p. 56-69.

VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. São Paulo, Brasiliense, 2004.
Porto Alegre, 21 de abril de 2010

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